25/08/2022
No dia 8 de julho, o Portal do Rodoviário publicou uma matéria falando sobre um vídeo, postado pelo motorista da Viação Nossa Senhora do Amparo, Fabiano Maciel dos Santos, 41 anos, que viralizou na internet. No vídeo, ele conta sobre uma cartinha que recebeu de uma criança, enaltecendo seu trabalho e dedicação. O Portal resolveu, agora, contar um pouco da história desse profissional, que foi às lágrimas e emocionou tanta gente ao ler aquela carta.
Casado há 17 anos com a técnica de enfermagem Daiane Barreto Silva, 31 anos, e pai de Ana Clara, 13, e Enzo, 8, Fabiano, quando criança e na adolescência, sonhava ser jogador de futebol. Chegou a jogar na divisão de base do Vasco da Gama. “Meu pai queria que eu estudasse, mas eu só queria jogar bola. Só que eu fui me machucando, tive várias lesões e a idade também foi estourando, aí não deu para continuar”, lembra. “Então meu pai me chamou num canto e disse: ‘toma esse dinheiro aqui (eram R$ 600,00). Você vai entrar numa autoescola, vai trocar sua habilitação de categoria (eu tinha categoria B) e depois vai numa empresa de ônibus, porque eles estão sempre precisando de motorista. Pelo menos você vai ter uma profissão até resolver se vai voltar a estudar”. E foi assim que Fabiano se tornou rodoviário, por volta dos 28 anos.
“Logo que eu recebi a habilitação fui na Rio Ita fazer o teste para motorista e eles me chamaram para ser manobreiro. Depois, quando sai da Rio Ita, fiz um teste na Maravilha e passei. Mas, um amigo, que era gerente da Kia Motos, me convidou pra trabalhar com ele, como gerente de posto dessa loja. Fiquei mais ou menos um ano lá e quando saí consegui ser contratado pela Viação Mauá, como motorista júnior. Da Mauá eu fui para a Transporte e Turismo Rosana, de Niterói, já como profissional. Após cinco anos na Rosana, fui pra Santo Antônio, no Largo da Batalha. Depois, fui trabalhar numa empresa que entrega quentinha em presídio, por um período de três meses. Quando eles perderam a concessão, fiquei desempregado. Lembro que eu estava em casa quando a Amparo, onde eu tinha entregue meu currículo já há um ano, me chamou para fazer um teste. Passei e já estou lá há três anos”.
Como se vê, a profissão de motorista de ônibus foi “acontecendo” na vida de Fabiano, após um “empurrãozinho” do pai. “Eu aprendi a gostar do que faço”, diz. “Uma das melhores coisas que a profissão me trouxe foi a amizade de muita gente, tanto dos companheiros de trabalho como dos clientes”, afirma. Fabiano atua na linha Marquês e Condado, em Maricá, cidade litorânea da Região Metropolitana do Estado do Rio de Janeiro. Ele dirige um dos famosos “vermelhinhos”, os tarifa zero, da Empresa Pública de Transporte (EPT) do município. Entre seus clientes, há muitos estudantes, principalmente crianças das escolas públicas. Uma delas é justamente a Maria Vitória, aquela da cartinha.

A cartinha que Maria Vitória escreveu para Fabiano: “Eu só sei dizer que eu admiro o seu trabalho. Porque não deve ser fácil acordar sempre às 5h da manhã (ele acorda às 3h para iniciar a jornada de trabalho às 4h30min), e também às vezes aguentar desaforo de passageiro. (Quero) Parabenizar o motorista pelo seu trabalho”
“Ela pega o ônibus todo dia de manhã com a mãe para ir pra escola. Naquele dia, quando ela subiu no ônibus, me deu a cartinha, que coloquei no painel para ler depois, quando chegasse no ponto para a próxima viagem. Aquelas palavras me emocionaram e eu resolvi gravar um vídeo contando sobre a carta e postar no grupo de Whatsapp que eu criei, reunindo os clientes da linha. Três dias depois, o vídeo apareceu no “Lei Seca Maricá”, um site de notícias da cidade. Aí deu muita visualização (atualmente já passou de um milhão de visualizações), o pessoal começou a me ligar, me parabenizar, uma amiga me ligou e disse: ‘você tá famoso, hein’. Não sei como foi parar nesse jornal nem quem enviou. Eu creio que pode ter sido a mãe da Maria Vitória, que está no grupo de Whatsapp, ou alguma outra pessoa do grupo. Eu tinha enviado o vídeo para o meu chefe também e a notícia chegou à direção da empresa e depois chegou até vocês. Meu chefe falou que o pessoal da Fetranspor tinha gostado muito e estava me chamando para uma entrevista no Portal do Rodoviário”.
A Maria Vitória não é a única criança que conquistou o carinho de Fabiano. “Eu gosto muito de criança, da bagunça que elas fazem, da alegria delas. Tem uma outra menina, acho que é Alice o nome dela, que sempre que entra no ônibus manda um beijo, chama de tio e eu respondo ‘oi, princesa’. É sempre assim”.
O segredo da boa relação, não apenas com os estudantes e crianças, mas com todos os clientes, segundo Fabiano, são três coisas simples: empatia, respeito e gostar de gente. “A empatia é a gente se colocar no lugar do outro. Ninguém tem culpa do problema de ninguém, mas você tem pelo menos que entender o que o outro está passando. O respeito também é importante. A gente recebe pessoas com muita educação, outras com pouca, recebe negro, branco, amarelo, homossexual, bissexual, velho, novo, homem, mulher, criança, jovem. E tem as pessoas de fora do ônibus também, como motoqueiro, pedestre. Então, tem que saber lidar e respeitar todo mundo. Eu gosto muito de lidar com as pessoas. No ônibus, você acaba conhecendo o coração de muita gente; você se torna quase um psicólogo porque ouve os problemas das pessoas, conversa com todo mundo. Os idosos, por serem mais carentes de atenção, são os que mais querem conversar”, diz. E completa: “não adianta ir trabalhar em ônibus só pelo salário ou porque estava desempregado. É preciso gostar de gente”.
Fabiano revela que procura dar um tratamento diferenciado para cada pessoa. A maioria de seus passageiros é de clientes fixos, que viajam todos os dias. No grupo de Whatsapp que reúne esses clientes mais assíduos, eles costumam avisar quando estão atrasados para pegar o ônibus. “Só um minutinho, hoje dormi mais do que a cama”, conta o motorista sobre algumas das mensagens que recebe no horário matinal. “Aí eu diminuo um pouco para dar tempo ao cliente de chegar. Não passa de um minuto. Porque se ele não pegar naquele horário, o próximo ônibus da linha só passa uma hora depois”, explica. “Eu gosto muito do meu trabalho. Foi através dele que construí muitas coisas na minha vida e fiz muitas amizades”, completa.
Apesar de gostar da profissão e do dia a dia como rodoviário, Fabiano nutre o sonho de passar em um concurso público, especialmente para a área de segurança pública, na carreira policial. O objetivo é “dar mais estabilidade e segurança à minha família”. Assim, nas horas vagas, se dedica a estudar. Ele já participou de alguns concursos e chegou bem perto de ser aprovado. O próximo que irá tentar é para o INSS. “Eu tenho um conhecimento amplo de direito penal, constitucional e administrativo. Então, estou me dedicando mais a estudar as disciplinas específicas. Nos concursos, as principais são português, constitucional e administrativo. Esse é o conteúdo básico. Seis meses de preparação para um concurso não é muita coisa para assimilar todo o conteúdo. Mas, se você estudar bem, dá para pegar”, afirma.
Além de trabalhar e estudar, Fabiano também dedica tempo de lazer com a família. “A gente vai à praia, ao parque. Mas, tem que coincidir da minha folga ser a mesma da minha esposa. Eu pego 4h30min e largo 14h30min e tenho duas folgas por semana. Ela trabalha numa clínica de home care, fazendo plantão no esquema de 24h por 48h (trabalha um dia inteiro e folga dois)”.
O flamenguista, que sonhava ser jogador de futebol e se tornou um motorista de ônibus bem sucedido e respeitado pelos clientes e colegas, tem uma frase de “cabeceira”: “Se quer ser tratado bem, trate bem. Não faça com os outros o que você não quer que façam com você”. Num balanço do Fabiano sobre si mesmo, os autoelogios são contidos. “Eu tenho meus defeitos, que são muitos. Mas me considero uma pessoa tranquila, simpática, verdadeira; se eu vejo um negócio errado, por mais que doa, eu falo; não passo a mão na cabeça, não. E também sou muito sentimental. Eu choro à toa, sou chorão pra caramba, qualquer coisinha…”
É, Fabiano, a gente viu isso naquele vídeo da cartinha. Sua emoção foi genuína e ultrapassou a tela do celular, do tablet ou do computador de quem assistiu. O setor de transporte coletivo tem sorte de poder contar com profissionais como você.
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