26/10/2023
Ele já trabalhou como segurança de mercado, já teve seu próprio negócio, vendendo churro, pastel e caldo de cana, e chegou a montar um quiosque e uma loja. Também foi vendedor ambulante e até candidato a vereador. No setor de transporte, trabalhou como bilheteiro, cobrador, motorista de caminhão e agora é motorista de ônibus, na Viação Cascatinha, de Petrópolis, onde está há 10 meses. Rodineli dos Santos, 42 anos, rodoviário há 20, é aquele tipo de profissional que encanta os clientes com sua alegria, carinho e atenção.
Uma prova dessa dedicação aos clientes se deu recentemente, quando Rodineli presenteou as passageiras mulheres com uma bala e um versículo da Bíblia, em homenagem ao Outubro Rosa, campanha internacional de conscientização para a prevenção e diagnóstico precoce do câncer de mama. Ele mesmo preparou as lembranças. “Eu estava na minha intimidade com Deus e senti uma cobrança de que eu não tenho mais evangelizado. Me dei conta que, no ônibus, tenho uma oportunidade de evangelizar um público grande. Aí, fui numa Lan House, selecionei vários versículos, imprimi e depois cortei. Comprei saquinhos de sacolé e coloquei um versículo dentro de cada saquinho, junto com uma bala rosa no formato de um coração. Eu fiz 150 lembrancinhas dessas e entreguei para as passageiras”, conta.
Boa parte do trabalho de preparação desses “mimos” se deu na própria garagem da empresa, quando o ônibus apresentou defeito e Rodineli teve um tempo livre antes de iniciar as viagens. “Eu já tinha feito um pouco em casa e colocado o restante do material na mochila para fazer nos intervalos entre uma viagem e outra. Aí o ônibus quebrou e eu tive que ir para a garagem aguardar. As pessoas ficaram curiosas, perguntando o que era, acharam interessante. Um rapaz chamou a Núbia (gerente de Recursos Humanos), aí já filmaram, fizeram foto, veio o inspetor, o chefe da garagem… Foi assim que chegou até vocês (Portal do Rodoviário)”. Sim, foi assim que esse motorista tão querido pelos clientes virou matéria da seção perfil.
Rodineli já havia feito algo semelhante quando trabalhou como cobrador, em outra empresa de Petrópolis, a antiga Turb (hoje Turp Transporte). Antes, na Cidade das Hortênsias, onde teve seu primeiro emprego como cobrador, realizou dois amigos ocultos com os clientes. “Eu sempre fui brincalhão e um cara que interage muito com os passageiros. Uma vez organizei um amigo oculto de chocolate, com os passageiros da viagem de 7h20. Foi bem rápido porque o percurso era de 15 minutos. Depois fiz outro, também de chocolate, só que na Turb. Esse foi muito melhor porque o percurso era de 1h e teve até comes e bebes no ponto final, porque a gente ficava 20 minutos parado até começar outra viagem”.
Para o Novembro Azul, campanha voltada à conscientização sobre o câncer da próstata, o motorista já tem tudo planejado. “Eu até já encomendei as canetas. Vai ser caneta porque é só para os homens e não vou dar balinha, né?”. Segundo Rodineli, certa ocasião, ele também recebeu um versículo, entregue por um menino de oito anos. “Eu estava vendendo meus churros e meu caldo de cana e era um dia não muito legal. Aquele menininho me deu o versículo que bateu certinho, sabe? Assim como aconteceu comigo, tem pessoas que às vezes precisam ouvir ou ler uma palavra que possa tocar seu coração”.
O motorista contou que a iniciativa ajudou a levar mais clientes para o seu ônibus e linha. “Tem uma outra linha que também serve pra muita gente. Mas, agora, o pessoal fala que só vai na do Pellegrini (bairro de Petrópolis e destino da linha operada por Rodineli) porque tem balinha. Até brinquei que estou trabalhando em dobro porque os passageiros em vez de irem na do Boa Vista (outro bairro e ponto final de linha da Cascatinha), que tem o mesmo caminho – só não sobe o mesmo morro -, estavam preferindo ir comigo para ganhar balinha”.
Nascido em uma família de 12 irmãos, um falecido e sete, inclusive ele e seus pais, morando no mesmo terreno, Rodineli conta que seu dia a dia é sempre uma festa. “É tipo um sítio, muito grande, e cada um tem seu lote separado, cada um com sua família. Minha mãe é uma senhora de 86 anos e tem três tataranetos”. O pai também é rodoviário e, aos 70 anos, apesar de aposentado, ainda trabalha. Até pouco tempo ainda atuava como cobrador; agora faz o apoio, ajudando e orientando os clientes. “Meu pai é muito trabalhador. Ele diz que se parar morre. Ele era torneiro mecânico e quando a empresa dele faliu, ele arrumou emprego de cobrador. Foram 14 anos na Salvini (Cidade das Hortênsias) e já está há 13 na Turp. Foi ele que arrumou pra mim como cobrador, na época”.
A família é grande, são muitos irmãos, irmãs, sobrinhos e sobrinhas, mas Rodineli mora sozinho em seu lote. Divorciado há três anos, sofreu com a perda do filho no parto e depois com a separação. “Foi uma fase difícil, mas hoje já estou bem”, revela. Inclusive tem dedicado parte do seu dia para cuidar da saúde; perdeu 30 quilos desde que começou a praticar exercício físico e mudou a alimentação. “Eu pego 14h45 e entrego o ônibus na garagem às 23h45. De manhã, acordo seis e pouco todos os dias, vou para a academia, faço musculação, e depois corro 12 km. Vou de Cascatinha até Itaipava correndo. Eu pesava 117 quilos e hoje eu peso 88. Hoje sou fitness. Agora é tudo regrado”.
Seu sonho é montar novamente um negócio, como o que teve há alguns anos. “Quando eu ganhei uma moenda de cana e comecei a vender pastel com caldo de cana, porque estava desempregado, foi um sucesso. Só na primeira noite, eu vendi mais de 80. Porque eu sou muito falante, sabe? Aí abri um quiosque, uma tenda. Depois, aluguei uma loja e bombou. Minha loja fervia… até chegar a pandemia. Tive que fechar e vender o maquinário todo para poder sobreviver, pagar as contas, poder comprar as coisas para dentro de casa”. Outro sonho do motorista é transformar sua Kombi em um motorhome e viajar pelo mundo.
Sobre a profissão de rodoviário, Rodineli diz que o segredo é gostar do que faz, gostar de estar na rua e, principalmente, gostar de gente. “Eu gosto de conhecer pessoas novas, de fazer amizade… A gente tem que saber se relacionar”. Sem dúvida, esse é o maior talento desse profissional que sempre levou, para todas as funções e atividades que já exerceu em sua vida, um sorriso largo e uma boa conversa.
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