07/07/2026

Motorista dançarino espalha alegria e conquista colegas e passageiros em Niterói

O despertador toca diariamente às 4h para o motorista Bruno Cunha de Oliveira, de 35 anos. Morador do bairro Maria Paula, em São Gonçalo, ele chega à garagem da empresa Pendotiba, em Niterói, por volta das 5h para começar sua jornada diária. O que poderia ser apenas mais uma rotina comum de trabalho no começo da manhã transformou-se em um fenômeno que tomou conta das redes sociais e do cotidiano dos colegas e passageiros.

Há cerca de quatro meses, ao perceber o cansaço dos colegas que chegavam ainda mais cedo na garagem, Bruno decidiu agir. Apaixonado por dança, ele começou a fazer coreografias para animar o ambiente antes do início do expediente. “Eu acordo às 4h, mas tem amigo lá que acorda duas da manhã, três da manhã. Teve um dia que cheguei na garagem e vi a rapaziada cochilando, meio que dormindo. Aí eu falei com o meu amigo: cara, vou fazer alguma coisa aqui para animar essa rapaziada aí”, relembra Bruno.

Sucesso inesperado

A iniciativa, que começou de forma despretensiosa, ganhou proporções imensas após um colega de trabalho e vizinho, chamado Luiz, filmar a cena escondido. Sem que Bruno soubesse, o vídeo foi gravado e compartilhado na internet, gerando uma onda de visualizações. As danças e a espontaneidade de Bruno para animar os colegas o levaram a atingir a marca de três mil seguidores no Instagram e mais de 16 mil no TikTok (ambos os perfis @motoristadancario2) .

“Eu chego do nada, começo a dançar. Aí quando eu vejo, a rapaziada gravou. Aí eu vou e posto”, conta o profissional, que agora lida com a fama de motorista dançarino. A brincadeira virou tradição na empresa, e o apelido passou a acompanhá-lo também pelas ruas. Hoje, moradores da região e passageiros pedem fotos e interagem constantemente com ele todos os dias.

De cobrador a motorista

A trajetória de Bruno no setor de transporte por ônibus começou logo após a sua saída do exército, aos 20 anos. A Pendotiba foi o seu primeiro e único emprego desde então. Ele entrou na operadora como cobrador, função que ocupou por cerca de seis anos. Incentivado pela própria empresa, Bruno conseguiu tirar a habilitação de categoria D e se candidatou a uma vaga para motorista. Após passar pela manobra e pela escolinha de formação, mantida pela Pendotiba, ele assumiu definitivamente o volante.

A escolha profissional teve forte influência de seu pai, que trabalhou como motorista de ônibus na empresa Miramar por mais de uma década e hoje dirige um caminhão-pipa. “Quando comecei, meu pai já era motorista e me aconselhou a iniciar no setor de ônibus como cobrador. ‘Daqui a um tempo você pode vir a ser motorista’, ele dizia. Eu gosto muito de ser motorista; foi a profissão que escolhi e eu honro muito essa escolha e esse trabalho”, destaca Bruno.

Relação especial com clientes

Há anos, Bruno comanda o volante na linha 52, que faz o itinerário entre Baldeador e Itaipu em uma viagem de aproximadamente 60 minutos. Por trabalhar no regime de turno único (TU), que consiste em realizar viagens pela manhã, descansar e depois voltar para as viagens do fim da tarde, ele atende a um público cativo de trabalhadores que vão e voltam do trabalho com ele, sempre nos mesmos horários. Essa convivência diária gerou laços de amizade e carinho com a comunidade.

No último aniversário de Bruno, celebrado dia 6 de agosto, os passageiros organizaram uma festa de aniversário surpresa para ele dentro do coletivo. Eles descobriram a data de nascimento do motorista através de um grupo de mensagens criado para a troca de informações sobre os horários de saída do ônibus do ponto final e previsão de chegada nos demais pontos durante o percurso. “Quando eu fui para o ponto vi muita gente junta, até os passageiros que não pegavam o ônibus ali. Pensei: que estranho esse pessoal aqui às 5h da manhã. Aí, eles entraram já com o bolo, salgadinhos, refrigerante…”, conta Bruno.

Respeito e confiança

Para o rodoviário, o segredo de um bom desempenho profissional na rotina rodoviária está no tratamento oferecido ao público. Ele defende que a empatia e o respeito mútuo criam uma rede de apoio em que os próprios passageiros defendem o motorista em situações difíceis. “É só conquistar o passageiro que você não vai ter mais problema. Porque trabalhar com o público é muito complicado. Mas quando entra alguém que tenta arrumar confusão, se você já conquistou seus passageiros, não vai precisar falar nada porque eles mesmos falam”.

Bruno conta que há várias maneiras de trazer o cliente para o seu lado. “Uma vez, a menina não conseguiu passar o cartão e eu senti que ela ficou com vergonha e imaginei que estava sem dinheiro. Eu falei para ela que podia passar e pagar no dia seguinte e na prestação de contas eu mesmo paguei. Quando ela embarcou no dia seguinte, me pagou e me disse: ‘você me salvou, porque era meu primeiro dia no trabalho”. O motorista ressalta a importância de um simples bom dia e da compreensão com o próximo para ganhar a confiança de quem compartilha com ele a viagem diariamente.

Orgulho de ser rodoviário

Nas horas vagas, longe do trânsito, o torcedor do Vasco e da Viradouro mantém uma rotina ativa com idas à academia, jogos de futebol nos fins de semana e a companhia da noiva, Tamires, que trabalha como manicure. O casal, que está junto há 15 anos, está finalizando a construção da casa própria para oficializar o casamento. Fã de resenhas e de um bom pagode, ele aproveita os dias de folga aos sábados e domingos para descansar e curtir a vida social, sempre dançando.

Com 15 anos de dedicação à mesma empresa, Bruno enxerga o papel do rodoviário como essencial para a vida dos cidadãos e para fazer girar a economia. “Somos nós que movimentamos as ruas, os bairros, as cidades, estados e o País. A gente que leva o estudante, a gente que leva o médico, a gente que leva o idoso para sacar seu dinheiro… Então, eu me acho muito importante para a sociedade”, conclui o motorista.

 

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