10/03/2026

Entre o pedal e a oficina: a trajetória de vida do rodoviário e ciclista conhecido como “Mineiro”

A trajetória de Zenildo Ramirez, de 52 anos, pode ser resumida por dois substantivos da língua portuguesa: resiliência e dedicação. Nascido em Perdões, Minas Gerais, Zenildo, mais conhecido como “Mineiro”, chegou ao Rio de Janeiro ainda criança, juntamente com seus pais e quatro irmãos. Inicialmente, a família foi morar numa comunidade, onde a fome era uma realidade presente. Para ajudar no sustento da casa, Mineiro começou a trabalhar ainda criança recolhendo materiais recicláveis nas ruas e vendendo picolé. Essa experiência contribuiu para moldar seu caráter e seu orgulho pelas origens humildes e especialmente pelo falecido pai, que era açougueiro.

Sua jornada no transporte coletivo começou há 30 anos, na Viação Jabour, onde entrou como auxiliar de serviços gerais, função que ocupou por apenas uma semana. Quando a empresa descobriu que ele possuía formação técnica como lubrificador, imediatamente o colocou para trabalhar na oficina e, desde então, as valas das garagens de ônibus passaram a fazer parte do dia a dia do Mineiro. Depois da Jabour, ele trabalhou na Viação Andorinha e há seis anos atua na Auto Viação Tijuca, a Tijuquinha. “Eu fiz a minha vida no ramo rodoviário. Se hoje eu tivesse que escolher, com certeza escolheria ser rodoviário novamente, porque não me arrependo de nada”, diz.

A formação no Exército

A formação técnica de Zenildo na profissão de lubrificador se deu no período de quatro anos e oito meses em que serviu na Brigada Paraquedista do Exército Brasileiro. Foi nessa época que ele teve a oportunidade de fazer o curso de lubrificação pelo Senai e, já qualificado, exercer a profissão no Exército. Antes disso, ainda na adolescência, ele só havia trabalhado formalmente como auxiliar de escritório.

Na Auto Viação Tijuca, Zenildo é um exemplo de profissionalismo. Ele observa que, embora a tecnologia tenha mudado a face do transporte e extinguido algumas funções, o valor humano permanece essencial. Sobre o sucesso no trabalho, é firme em dizer: “o segredo é ser humilde em tudo o que você está fazendo. É nunca mostrar que sabe tudo e ter a consciência de que estamos sempre aprendendo”. O lubrificador revela que aplica essa mesma filosofia de respeito e aprendizado contínuo em todas as áreas de sua vida, principalmente nos esportes que pratica.

Kung Fu: primeiro esporte

A disciplina de Zenildo não se limita às engrenagens dos ônibus; ela se estende ao Kung Fu, que começou aos cinco anos de idade, ao ciclismo, esporte ao qual se dedica, participando inclusive de competições, e à pesca submarina, um hobby que pratica eventualmente na Restinga de Marambaia.

Sem recursos para pagar uma academia, Mineiro costumava acompanhar as aulas do mestre Santana através das grades, do lado de fora, imitando os movimentos que o professor ensinava aos seus alunos. Comovido, o mestre permitiu que ele treinasse pagando apenas metade da mensalidade. Ao longo do tempo, seu talento foi se revelando e o professor o convidou para treinar individualmente. Sua dedicação o levou a um alto nível de excelência e Zenildo acabou sendo consagrado professor ao atingir a 21ª categoria das 36 existentes no Kung Fu.

Seguindo os ensinamentos de seu mestre, Zenildo manteve por anos um projeto social onde dava aulas gratuitas em uma Clínica da Família, em Bangu, onde mora, chegando a ter mais de 50 alunos. Com a pandemia da Covid-19, o projeto precisou ser interrompido, mas o professor tem planos de retomar as aulas comunitárias. Para ele, a arte marcial nunca foi sobre ostentação, mas sobre o que reside na mente e no coração. “O Kung Fu de verdade está dentro da mente; a roupa é só um adereço”, explica.

Ciclismo e Montain Bike

Atualmente, o montain bike e o ciclismo de longa distância são os esportes aos quais Zenildo se dedica. Sua bicicleta serve aos treinamentos para as competições e também como meio de transporte. Faça sol ou faça chuva, três vezes por semana, ele vai para o trabalho pedalando ao longo dos 32 km que separam sua casa, em Bangu, da empresa, no Andaraí. O lubrificador sai às quatro da manhã e segue pelas vias junto às estações de trem, chegando à Tijuquinha por volta das 5h40.

Para Zenildo, a bicicleta é sinônimo de saúde plena: “é muito difícil eu precisar ir ao médico; geralmente só vou para fazer check-up”, conta. Além disso, ele defende a utilização da bicicleta em substituição aos carros. “É um ato de respeito ao meio ambiente e ao trânsito. Se o Brasil fizesse como alguns países desenvolvidos e adotasse a bicicleta como transporte, tivesse mais ciclofaixas, as pessoas seriam mais felizes, teriam mais saúde e a vida seria melhor”, afirma.

Como atleta de competição, Zenildo acumula medalhas importantes, como o primeiro lugar absoluto (individual) no Rali de Seropédica e o segundo lugar absoluto no Desafio do Mendanha, ambos na modalidade mountain bike, que pratica aos finais de semana. Ele também conquistou o terceiro lugar por equipes na prova de ciclismo de longa distância Rio-Cabo Frio. Sua preparação é intensa e inclui treinos diários, inclusive em casa com rolo de treinamento. A meta agora é o Rali rumo a Aparecida do Norte, que será feito pela trilha do Caminho da Fé e está marcado para o mês de julho. “Já estou me preparando para mais esse desafio. Tem muitos atletas de ponta que irão participar, mas estou confiante”.

Orgulho de ser rodoviário

A postura de Zenildo nas competições reflete sua integridade pessoal, recusando patrocínios que possam interferir em seu desempenho ou ditar resultados. “Prefiro competir pela satisfação pessoal e pelo prazer de mostrar quem eu sou através do meu próprio esforço. O esporte não é minha fonte de renda, não é meu trabalho, mas uma paixão, um modo de vida”, afirma.

Casado há 20 anos com Aline, Zenildo Ramirez vem se equilibrando entre o trabalho técnico na oficina da Auto Viação Tijuca e a disciplina de um atleta de elite. Sob o chassi de um ônibus ou sobre o selim de sua bicicleta, ele segue movido pela paixão de ser lubrificador e ciclista.  Ao ser questionado sobre o que melhor simboliza a união entre o rodoviário e o desportista, Mineiro destaca a humildade, o respeito e a disciplina, mostrando o quanto o ônibus e a bicicleta o ensinaram como ser humano e cidadão.

2 respostas para “Entre o pedal e a oficina: a trajetória de vida do rodoviário e ciclista conhecido como “Mineiro””

  1. ALEXANDRE DE SOUZA MATTOS disse:

    FICO FELIZ EM SABER QUE CADA VEZ MAIS TEM RODOVIÁRIO NO CICLISMO.E UMA SENSAÇÃO DE LIBERDADE INCRÍVEL.AINDA NAO CONHEÇO ELE PESSOALMENTE MAS QUEM SABE UM DIA.A POUCO TEMPO CONHECI O RENATO DA EXPRESSO RECREIO QUE TAMBEM FAZ CICLISMO E UM COLEGA DA Oficina DA PONTE COBERTA QUE TAMBEM FAZ CICLISMO.

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