19/12/2025
A trajetória de vida de Marco Antônio Reis Ferreira, 46 anos, motorista da empresa Cidade Real, de Petrópolis (RJ), é marcada por muita luta, tanto no sentido figurado como no sentido real da palavra. Sua superação pessoal e suas vitórias no Jiu-Jitsu, esporte que o consagrou, pelos cinturões e medalhas conquistados, e lhe rendeu a alcunha de Mão de Ferro.
Ainda adolescente, Marco começou a trabalhar para ajudar nas despesas de casa. “Meu primeiro emprego foi em um mercado, onde ele empurrava carrinho, depois eu virei empacotador, aí depois eu virei repositor”, conta. Por volta dos 20 anos, já habilitado para conduzir carro de passeio, iniciou sua jornada como motorista profissional dirigindo táxi. Algum tempo depois, quando conseguiu sua habilitação categoria D, o motorista comprou uma van. “Trabalhei um tempo, mas não deu muito certo. Aí decidi tentar uma vaga em ônibus”, revela.
Primeira empresa
A oportunidade surgiu na Trel, empresa de Duque de Caxias e Magé. “Eles me acolheram. Mesmo sem eu ter experiência, me deram uma oportunidade. Fiz os testes e passei em todos”, diz. Marco Antônio conta que os primeiros anos como motorista de ônibus foram desafiadores. “Eu me sentia como uma agulha num palheiro, não conhecia nada. O primeiro dia de trabalho, então, nem se fala. Foi duro, uma dificuldade imensa. Não tinha cobrador; era só eu e eu mesmo”, lembra. Apesar dessa solidão que encarou no começo da profissão, Mão de Ferro descreve essa fase como uma “verdadeira faculdade”. Ele revela que foi na Trel onde aprendeu a dirigir, a como lidar e tratar os passageiros, como se colocar no lugar do passageiro. “Você, numa viagem, é o responsável por aquelas pessoas e tem que pensar: – e se aquela criança fosse meu filho, e se aquele idoso fosse meu pai… Carrego comigo desde a minha infância um ensinamento dos meus pais: tratar as pessoas como você gostaria de ser tratado”.
Após o período de trabalho na Trel, Marco Antônio se candidatou a uma oportunidade como motorista de ônibus em Petrópolis, sua cidade, na empresa Petro Ita, onde ficou e foi feliz durante longos 16 anos. Quando a operadora foi extinta, em 2023, Mão de Ferro, com a vasta experiência e um perfil profissional impecável, logo ingressou na Cidade Real, empresa que o abraçou e se tornou parceira. “Eles me deixaram na mesma linha em que eu trabalhava há 12 anos e passaram a me patrocinar como atleta”, explica.
Casado com Sueli Yasmin há 20 anos e pai de Yasmim e Raíla, de 21 e 20 anos; uma é professora e a outra está cursando faculdade de comunicação. Recentemente, a família passou por um momento difícil e delicado, quando uma as filhas sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC). “Ela ficou internada durante um mês e 20 dias, mas hoje está recuperada, sem nenhuma sequela. E nesse período, a Cidade Real demonstrou mais uma vez que é uma empresa parceira do funcionário. Ela me estendeu a mão. A primeiro coisa que fez foi me colocar de férias, permitindo que eu acompanhasse o tratamento da minha filha. E isso eles fazem com todos os funcionários, não foi só comigo”, afirma.
Marco Antônio também viveu um problema sério de saúde. Há alguns anos enfrentou uma depressão profunda e foi justamente na busca da cura que o Jiu-Jitsu entrou em sua vida. “Foi na época em que eu trabalhava na Petro Ita. Fiquei afastado da minha atividade por um ano e seis meses. A minha médica recomendou que eu fizesse um esporte e de preferência o Jiu-Jitsu. Ela disse: vou te dar seis meses e depois disso quero te ver de novo pra gente começar a diminuir a medicação”, conta. Mão de Ferro lembra que, na época, devido à doença e também aos remédicos, chegou a pesar 124 quilos. “Eu tinha perdido toda a minha coordenação motora. Mas, fui pro Jiu-Jitsu e ele me salvou”.

Isso aconteceu há cerda de oito anos. Seu primeiro mestre, já falecido, foi Wellington Brazza. “Ele foi fundamental para a minha recuperação. Foi quem acreditou em mim mais do que eu mesmo… Porque quando a gente está depressivo não acredita na gente”. Segundo o lutador, hoje com 96 quilos, o esporte foi realmente sua cura. “Mudou a minha vida da água para o vinho”. Após três anos de prática, incentivado pelo mestre Allan, que substituiu Brazza, Marco Antônio resolveu se desafiar participando de uma competição oficial. “O mestre Brazza sempre me chamava para participar de campeonatos, queria ver minha evolução, mas eu logo arrumava uma desculpa, dizia pra ele que só estava ali por indicação médica”, conta. E acrescenta: “o mestre Allan também treinava com o Brazza desde criança e assumiu a academia, dando continuidade ao trabalho. Ele conseguiu me convencer a competir”.
A primeira luta foi na Copa Magé e o resultado foi a derrota. “Eu fui apagado. Acordei pensando que tinha ganhado. Mas aí vi que o chão não era meu lugar. Agradeci e parabenizei meu adversário, que foi mais técnico do que eu, e falei pra ele que eu ia treinar e voltar. Aquilo me marcou profundamente e se tornou minha maior inspiração”. Foi exatamente isso que aconteceu. Marco Antônio treinou mais duro, se dedicou, conseguiu reduzir a medicação, trabalhou intensamente, tanto no aspecto físico como no mental, e começou uma nova jornada de títulos e vitórias. Sua única derrota foi aquela primeira. De lá para cá, subiu ao primeiro lugar do pódio todas as nove vezes em que participou de uma competição. Conquistou cinco cinturões da Copa Magela, medalha de ouro na Copa Caxias, no Campeonato Brasileiro, no Campeonato Pan-Americano e no Mundial. Para 2026, já planeja competir novamente no Brasileiro.
Motivo de inspiraçãoMão de Ferro tornou-se inspiração para alguns colegas rodoviários e para aa própria filha, que se recuperou do AVC e agora pretende se matricular no Muay Thay, visando cuidar melhor da saúde. Recentemente, em evento da Cidade Real que celebrou o Novembro Azul, ele foi um dos palestrantes. Falou sobre a superação através do esporte, incentivando os demais funcionários da empresa a se matricularem em alguma atividade física.
O lutador fala orgulhoso como o Jiu-Jitsu mudou sua trajetória. Ele ganhou fama na cidade, devido às várias matérias que saem nos jornais e redes de televisões locais. “O que eu mais fico feliz é ver as crianças animadas, dizendo que também querem aparecer na televisão, que querem praticar um esporte. Isso é muito gostoso. Porque o esporte em si, independentemente de qual seja, faz diferença na vida das pessoas”, finaliza.
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