22/11/2023

Lanterneiro, soldador e professor de jiu-jitsu

Alan Santana da Silva do Nascimento, 37 anos, lanterneiro da Viação Pendotiba, localizada em Niterói (RJ), começou a carreira aos 19 anos, como ajudante na Viação Mauá, de São Gonçalo (RJ), após completar a formação de soldador. Sempre pensando em melhorar profissionalmente, Alan buscou novos cursos e treinamentos. Trabalhando na Fagundes Auto Ônibus, também de São Gonçalo, formou-se em lanternagem. Além do transporte coletivo por ônibus, atuou também na indústria naval. Na Pendotiba, somando o primeiro período de trabalho e o mais recente, já são 11 anos de dedicação.

Casado há 10 anos com Gleice Kelly, 34 anos, Alan é pai de três meninos – Taylan, de 13 anos, e Thauan, de 11, de seu primeiro relacionamento, e o caçula Gaél, de 2 anos. Morador do bairro do Mutua, em São Gonçalo, o lanterneiro conta que abraçou essa profissão como uma grande oportunidade em sua vida. “Na época eu não tinha terminado os estudos, mas consegui concluir o curso de soldador e iniciar como ajudante. Aí, eu corri atrás para poder me profissionalizar e terminei os estudos também”, lembra. “Tudo o que eu conquistei, tudo o que eu tenho, eu devo ao meu trabalho como rodoviário”, completa.

Projeto social “Vencedores em Cristo”

Além de rodoviário, Alan se dedica a um outro trabalho do qual também fala com muito orgulho. Ele é faixa roxa e professor de jiu-jitsu no projeto social “Vencedores em Cristo”, na comunidade do Salgueiro, em São Gonçalo. “No jiu-jitsu, eu comecei como brincadeira, aqui mesmo na empresa. Tinha um pintor que era faixa marrom e uma vez ele ‘me finalizou’. Aí eu pedi para ele me ensinar aquilo. De lá pra cá, não parei mais”, afirma.

Sua ligação com o “Vencedores em Cristo”, no qual dá aulas de jiu-jitsu para crianças e adolescentes do Salgueiro, começou há seis anos, quando estava procurando um local para fazer seus treinos. “Ali, no projeto, eu entrei como faixa azul, fui me graduando, me aperfeiçoando e fazendo mais cursos para poder dar aula. Sempre foi um dos meus sonhos dar aula para crianças”, revela. Alan conta que a prática desse esporte e, depois, o trabalho social que começou a desempenhar mudaram sua vida. “Antes, eu era uma outra pessoa”, diz.

O jeito para lidar com as crianças e a idade, 31 anos na época, foram determinantes para que Alan fosse logo convidado a atuar como professor voluntário no projeto. Hoje, ele integra a equipe AC jiu-jitsu, do professor Anderson, e comanda uma turma de 14 alunos, com idades que variam entre 6 e 16 anos.

“A essência do jiu-jitsu é a disciplina”

Segundo o rodoviário, o “Vencedores em Cristo” realiza um trabalho completo, que envolve não apenas o esporte em si, mas educação, cidadania e respeito. “A essência do jiu-jitsu e consequentemente do projeto é a disciplina. Muitas vezes a criança chega lá xingando, sem respeitar a mãe ou o pai e até nós mesmos, que estamos lá. Aí a gente ensina a hierarquia, o respeito, que eles devem agir na vida como agem no tatame, como agir em casa, com a mãe e o pai…”

O projeto social, de acordo com Alan, foi criado e é liderado por quatro professores faixas pretas, oferece aulas 100% gratuitas, e já levou vários jovens a se destacaram em competições nacionais e internacionais. Letícia, também chamada de Lelê, é um exemplo. Com 16 anos, a faixa azul no jiu-jitsu é campeã mundial e, segundo revelou Alan, em quase todos os campeonatos dos quais participa sempre conquista medalhas. “Eu sou um dos incentivadores dela”, afirma Alan. Ele explica que as indicações dos nomes para participarem de competições representando o Brasil são levadas pelos professores aos quatro coordenadores do projeto, que dão a palavra final.

Competidor aposentado, focado em ensinar

O próprio Alan já participou de campeonatos fora do Brasil, na Europa e na Argentina, sendo o último em 2017, e, mais recentemente, em janeiro passado, do estadual do Rio. “Mas, todos com desempenho bem modesto”, diz. E completa: “hoje eu não compito mais, porque já estou com 37 anos, trabalho praticamente o dia todo em pé, então fica puxado pra mim. O ideal de um competidor é ter abaixo de 35 anos, no máximo, porque aí a recuperação do corpo é mais tranquila”, explica.

Aposentado das competições, Alan focou seus esforços no esporte à formação de novos atletas, dentro do projeto “Vencedores em Cristo”. “É muito gratificante. A gente não vê apenas a oportunidade de treinar e ter conhecimento de uma arte marcial. A gente vê a oportunidade de ensinar para alguém que precisa. Várias vezes a gente chegava no Salgueiro e encontrava as crianças na rua, brincando. Algumas passavam o dia todo perto da boca de fumo. E a gente sempre convidava a participarem do projeto. Conseguimos levar muitas para dentro. Eu acho muito gratificante o que eu faço”, ressalta.

“Tem que fazer o melhor, dar o melhor”

Alan também demonstra seu orgulho pelo trabalho como rodoviário e aconselha a quem está começando agora na categoria a buscar a certeza do que quer profissionalmente. “Tem que prestar atenção no que vai fazer, se realmente é isso que quer para a vida. Porque não é um serviço que pode ser feito de qualquer maneira, tem que ter cuidado com tudo que você faz. Você não pode ser um cara que venha trabalhar e não dar o seu melhor, entendeu? Principalmente nessa área de transporte, a gente tem que prestar muita atenção no que a gente vai fazer, em tudo – no meu caso, como lanterneiro e soldador, seja ao trocar uma chapa, ao soldar uma estrutura… Por exemplo, um ônibus quebra na rua, a gente não pode fazer um serviço de qualquer maneira pra ele quebrar de novo e ficar voltando pra garagem pra consertar. A gente tem que prestar atenção e fazer o melhor, dar o melhor”, finaliza.

 

Uma resposta para “Lanterneiro, soldador e professor de jiu-jitsu”

  1. Amanda Nascimento disse:

    Que orgulho primo! Que Deus continue abençoando sua vida. ❤️

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