27/04/2026

Semove fala da preocupação com avanço do transporte individual por motocicletas e crise estrutural do sistema de ônibus no Rio de Janeiro

A Semove (Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro) manifestou preocupação com o crescimento acentuado do uso de motocicletas, inclusive por aplicativos, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. O tema foi o eixo central das intervenções da entidade durante o seminário “Motocicletas e mobilidade urbana: impactos e desafios”, realizado em 16 de abril, na Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ).

Diagnóstico da crise e migração de demanda

Segundo dados apresentados por Eunice Horácio, gerente de Mobilidade Urbana da Semove, o sistema de transporte público por ônibus enfrenta uma crise estrutural severa. Entre 2014 e 2025, registrou-se uma redução de aproximadamente 50% na frota, no número de viagens e no total de passageiros pagantes. Em contrapartida, dados da Confederação Nacional do Transporte (CNT) indicam que, em nível nacional, o uso de motocicletas cresceu 120% e o de serviços por aplicativos saltou 1.000%.

O diagnóstico da Semove aponta que cerca de 30% dos usuários abandonaram o modo ônibus, sendo que 72% migraram para o transporte individual motorizado. De acordo com Eunice Horácio, embora o transporte coletivo seja estatisticamente mais seguro, fatores como tempo de viagem, flexibilidade e conforto físico têm pesado na decisão do passageiro.

Eunice Horácio (à direita)

O fator tempo como estratégia de reversão

A análise institucional baseia-se em estudos, como o apresentado pela professora Marina Baltar (Coppe/UFRJ) no seminário, que indicam a rapidez como o principal motivador para a escolha da moto, mesmo diante da percepção de insegurança (57,21% dos usuários sentem-se inseguros e 47% já sofreram quedas).

A Semove destaca que há uma oportunidade de recuperação de mercado: 78% dos entrevistados afirmaram que retornariam ao ônibus caso o tempo de viagem fosse reduzido. Para a federação, a requalificação do sistema é a única via para a sustentabilidade do setor.

Posicionamento e propostas da Semove

A posição da Semove é enfática ao diferenciar o transporte público da proliferação indiscriminada de motocicletas. Entre as medidas defendidas pela entidade para atrair o passageiro de volta, destacam-se: Infraestrutura prioritária, com implantação de corredores exclusivos e faixas preferenciais estritamente para ônibus, visando aumentar a previsibilidade e reduzir o tempo de deslocamento; gestão e regulação, com fortalecimento de políticas tarifárias que reduzam o custo para o usuário e investimentos em tecnologia e comunicação; e aprovação do Marco Legal do Transporte Público, considerado fundamental para estabelecer metas de qualidade e fontes extratarifárias de financiamento.

Eunice Horácio conclui que o uso de motos sem regulamentação não contribui para uma cidade acessível: “moto não é transporte público. Para trazer o passageiro de volta, precisamos oferecer o que ele busca: viagens mais rápidas e previsíveis”.

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