25/07/2025

Estudo da NTU aponta estagnação do modelo atual de Tarifa Zero

Aumento de municípios que adotam gratuidade no transporte coletivo desacelera em 2024. Viabilidade da tarifa subsidiada, em cidades médias e grandes, depende de política nacional, financiamento estável e planejamento.

Foto: Paulo Pinto / Agência Brasil

A segunda edição do estudo “Tarifa Zero nas Cidades do Brasil”, publicado pela Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), revela que o atual modelo de implantação da gratuidade no transporte coletivo por ônibus começa a dar sinais de esgotamento. Depois de uma expansão acelerada, entre 2020 e 2023, o número de novos municípios que aderiram à tarifa zero caiu drasticamente, em 2024. Mesmo sendo um ano eleitoral, apenas dez novas cidades adotaram a política, frente a mais de 40, no ano anterior.

Esse movimento, segundo a NTU, indica que o modelo vigente — baseado quase que exclusivamente em decisões políticas isoladas e no uso do orçamento local — pode estar chegando ao seu limite. “A tarifa subsidiada – incluindo a tarifa zero, que é a tarifa plenamente subsidiada — só está funcionando, hoje, em cidades pequenas, com redes simples e orçamentos superavitários. Para crescer, precisa deixar de ser ação isolada de alguns prefeitos e se transformar em política pública nacional”, afirma Francisco Christovam, diretor executivo da entidade.

Apesar de já estar presente em 154 municípios brasileiros, a tarifa plenamente subsidiada de modo universal (para todos os dias e em todas as linhas) permanece fortemente concentrada nas cidades de pequeno porte. Segundo o levantamento, 79% das cidades que adotaram a política possuem até 100 mil habitantes. Quando se trata de cidades maiores, a realidade muda: apenas 12 municípios, com mais de 100 mil habitantes, oferecem gratuidade integral (tarifa zero), em todas as linhas e todos os dias da semana. Esse número representa menos de 4% do total de cidades com população acima de 100 mil habitantes (307 cidades), que são atendidas por serviço organizado de transporte público urbano, por ônibus. Na comparação com o relatório anterior (2024), apenas uma cidade com mais de 100 mil habitantes — Sorriso, no Mato Grosso — adotou a política de forma universal, no último ano.

Foto: Prefeitura de Itaboraí

Desafios para implementação

A viabilidade da tarifa totalmente subsidiada está fortemente atrelada aos sistemas de transporte de menor porte e/ou às fontes extraordinárias de receita, aponta o estudo. Na maioria dos casos, onde o modelo foi implantado, os sistemas de transporte locais contam com poucas linhas e frotas reduzidas, o que torna os custos mais viáveis. Em outras situações, como em Maricá (RJ), os investimentos são viabilizados por receitas provenientes de fontes específicas — na cidade fluminense, por exemplo, houve a destinação de R$ 87,6 milhões ao programa, em 2024, advindos de royalties de petróleo.

Contudo, mesmo em cidades que conseguiram colocar o modelo em funcionamento, já há sinais de esgotamento. Caucaia (CE) precisou reduzir sua frota operacional em 23% para conter os custos. Assis (SP) cortou pela metade o número de ônibus em circulação. Já em São Luís (MA), o programa “Expresso do Trabalhador” foi suspenso por falta de recursos. Os casos mostram que, sem planejamento técnico e estrutura de financiamento perene e adequada, a tarifa totalmente subsidiada pode comprometer a qualidade do serviço, chegando, no limite, a ser descontinuada — o que representa um prejuízo duplo para a população.

Benefícios para a economia local

Apesar das dificuldades, as experiências registradas em algumas cidades demonstram o potencial positivo da tarifa totalmente subsidiada para a economia local e para a vida das pessoas, segundo as prefeituras que adotaram a política; o efeito positivo viria do redirecionamento dos recursos, que seriam gastos com a tarifa, para o consumo das famílias. Em Luziânia (GO), o comércio cresceu 36%, após a adoção da medida, com R$ 25 milhões a mais em circulação. Em Caucaia (CE), houve aumento de 25% no faturamento do setor de comércio e serviços, além de crescimento equivalente na arrecadação tributária. Paranaguá (PR) também colheu bons resultados: crescimento de 30% nas vendas, queda de 40% nos acidentes de trânsito e aumento de 200% na demanda do Restaurante Popular. Já Maricá (RJ) estima que a tarifa zero representa uma economia de 20% no orçamento das famílias usuárias.

Marco Legal do Transporte Público

Para a NTU, o caminho para aumentar o número de cidades que subsidiam seus passageiros no transporte público, especialmente no caso de cidades médias e grandes, passa pela aprovação do novo Marco Legal do Transporte Público (PL 3278/2021). O texto, já aprovado no Senado e que tramita na Câmara dos Deputados, propõe a separação tarifária, ou seja, a distinção entre o valor pago pelo passageiro (tarifa pública) do custo real do serviço prestado (valor da remuneração, pago às empresas operadoras). Essa separação cria as condições para a aplicação de subsídios públicos, de forma transparente e progressiva, permitindo que os municípios estabeleçam tarifas mais acessíveis e, eventualmente, caminhem em direção à gratuidade total.

“Essa separação é o primeiro passo para permitir tarifas módicas e remuneração justa pela prestação do serviço. Mas, sem planejamento, monitoramento e fonte de custeio permanente, o risco é cair na armadilha do ônibus gratuito, porém precário e insustentável”, ressalta Matteus Freitas, diretor técnico da NTU. Ele destaca que a posição da NTU é técnica e ponderada: a entidade não defende nem rejeita a tarifa zero como solução única, mas sim como política que deve ser avaliada caso a caso, com base em estudos técnicos, planejamento das operações e análise da viabilidade financeira.

Vale destacar que o Seminário Nacional NTU 2025, que ocorrerá nos dias 12 e 13 de agosto, em Brasília, vai debater a questão dos subsídios e das tarifas sociais. Outros temas estratégicos também estarão na pauta, como o Marco Legal do Transporte Público e as políticas de transição energética da frota. O evento contará com a presença de especialistas, líderes do setor, parlamentares e representantes dos três níveis de governo.

Acesse o estudo “Tarifa Zero nas Cidades do Brasil” aqui

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