Damião Serafim da Silva, 63 anos, é motorista da Viação Ideal desde 1987, sendo o funcionário mais antigo da operadora em atividade. Foi a primeira empresa de ônibus em que trabalhou e onde “já fez de tudo um pouco”, ele conta. “Comecei como manobreiro, ajudava a tomar conta da garagem de noite, fui fiscal, despachante, passei para motorista, depois fui convidado para ser inspetor e, então, voltei para motorista. São quase 35 anos de volante”, conta. Atualmente, transporta os passageiros da linha 696, que liga a Ilha do Governador, bairro sede da Ideal, ao Méier, na Zona Norte do Rio de Janeiro.
A rotina de Damião começa nas primeiras horas da madrugada. Às 3h30 ele já está dentro do ônibus, no ponto, para dar a partida para sua primeira viagem do dia. Os passageiros dessa e da próxima viagem são, na maioria, sem os mesmos trabalhadores que, como ele, saem de casa ainda no escuro para sua jornada de trabalho. Todos já se conhecem e depositam em Damião a confiança de levá-los em segurança todos os dias. “Têm pessoas que, quando estão um pouquinho atrasadas, me ligam para avisar”, revela o motorista. “Quando a gente tem um horário fixo na linha, todo mundo faz o ambiente e todo mundo se conhece. Tudo que eu posso fazer para ajudar, eu faço. E sou retribuído com muito carinho. Todo mundo gosta de mim”, completa.
“Eu amo dirigir”
A profissão de motorista é uma paixão na vida de Damião, assim como a operadora em que trabalha. “Imagina uma fatia de bolo que a pessoa gosta… sou eu na Viação Ideal. Tudo o que eu tenho hoje na minha casa foi graças à oportunidade que a empresa me deu e ao meu trabalho. Eu amo dirigir e sou muito feliz como motorista. A única coisa que eu sei é que eu amo dirigir, entendeu? Eu abracei essa causa de ser motorista”, afirma.
Antes de atuar como rodoviário, Damião serviu ao Exército, durante 4 anos, na Escola de Instruções Especializadas, em Realengo, no Rio, chegando à patente de cabo. A ideia era seguir carreira como militar, mas o rigor da corporação o afastou e a vida reservou outros planos para ele. Quando saiu do Exército, Damião trabalhou como balconista numa loja de material de limpeza, depois como motorista de caminhão de entrega percorrendo várias cidades do estado do Rio e, finalmente, ingressou na Ideal, onde, ali sim, fez carreira e logo passou a viver, diariamente, seu amor pelo volante.
Capital Federal
Brasiliense, Damião é filho de pais nordestinos, de Fagundes, município da Paraíba, localizado a 40 km de Campina Grande, que se mudaram para a futura capital federal por volta de 1958, quando a cidade estava sendo construída. “Meu pai era encarregado de obra e foi para trabalhar lá e depois buscou minha mãe com meu irmão mais velho. Eu nasci em Brasília, em 1961 (um ano após a inauguração da cidade)”, explica. No início dos anos de 1970, a família embarcou para o Rio de Janeiro para buscar uma vida nova. “Éramos oito irmãos – seis homens e duas mulheres. Eu tinha uma pareia, um gêmeo, era Cosme e Damião. Ele morreu quando a gente tinha 14 anos. O mais velho também faleceu”, revela o rodoviário.
Pai de três filhos já adultos, Damião vive atualmente com sua companheira, no bairro Bancários, na Ilha do Governador. Entre os filhos, o caçula, Anderson, de 34 anos, seguiu os passos do pai e trabalha como rodoviário. Ele é despachante na empresa Transportes Parapuan, também localizada na Ilha. A filha do meio é a enteada Luciana, de 39 anos, fruto de seu antigo relacionamento e que ele cria desde os 6 anos de idade. “Ela passa em tudo que é concurso que faz, trabalhou na Petrobras, hoje está na prefeitura, já jogou no Vasco, toca pandeiro, luta capoeira e já comprou o apartamento dela”, conta orgulhoso. O mais velho, Diogo, de 40 anos, ele conheceu já adulto. “Infelizmente, ele está preso. Os colegas fizeram um arrastão dentro do ônibus e ele estava no meio. Até provar que não participou…”, lamenta o rodoviário.
Histórias heróicas
Nesses quase 40 anos como rodoviário e quase 35 como motorista de ônibus, Damião viveu muitas histórias. Certa ocasião, seu veículo foi vítima de uma manifestação criminosa em Triagem/Benfica. “Eles tacaram fogo na parte de trás do ônibus e mandaram os passageiros. E eu continuei, consegui fugir com carro pegando fogo e mais à frente consegui apagar o fogo que ainda estava só no banco. Com isso, evitei maiores prejuízos para a empresa. Muita gente falou que eu podia ter morrido ali”, lembra. Em outra ocasião, ele estava parado no semáforo, na Avenida Democrata, e mal deu a partida houve um tiroteio. O ônibus que estava logo atrás foi atingido, deixando vários passageiros feridos e um morto.
Este ano, quando a Viação Ideal completou seu 91º aniversário, Damião foi homenageado como o funcionário mais antigo da empresa. Seu segredo para ser um bom profissional motorista é “ter muita atenção, muita dedicação, gostar do que faz e sempre dizer para os outros que está pronto para aprender o que for preciso. Isso daí é muito importante. A gente nunca sabe tudo. Sempre vai aprender uma novidade mais na frente. E isso eu faço bastante”.
Confira nas redes sociais da Viação Ideal, a homenagem recebida por Damião:
Eu sou a Filha do meio Luciana.
Tenho muito orgulho do meu Pai.
Digníssima homenagem pela história de vida e seu legado.